Caso 15 - Um galho que cai

Que o morrer é um mistério, como relato no Caso 3, não me resta dúvida. Ainda assim a morte trás outros mistérios dentro do seu próprio mistério. Dado que estamos vivos, o nosso futuro é um mistério que encobre tudo, inclusive a maneira e a data em que morreremos. Logo, esse mistério dentro de outro mistério é de uma angústia dolorosa.
No entanto, não é sobre a data de nossas mortes em si que trato neste presente caso.
Abordo agora as maneiras de se morrer, ou de que forma podemos morrer.
É certo que morreremos, salvo raríssimas exceções, a acreditar em certos relatos históricos que não cabe agora discutirmos. Morreremos todos. Logo, sempre será possível atribuir uma causa à nossa morte, seja ela qual for. Parte-se do pressuposto de que se nada nos matar, nunca morreremos. E mesmo que vivamos muito, não estamos imunes à velhice, que embora não seja de fato uma doença, é naturalmente uma das causas mais óbvias pelas quais as pessoas morrem. A velhice mata tão legitimamente quanto qualquer outra causa. 
As pessoas de certa forma temem a velhice, mas ainda assim a aceitam como um mal menor diante das milhares de outras maneiras de se morrer. Afinal, a única condição exigida para se morrer é estar vivo. Então, uma pessoa sensata sabe que pode negociar com a morte o quando e o como mas não indefinidamente. Se tiver cuidado, tende a viver mais e assim acabar morrendo de velhice. De certa forma a escolha pelo viver cuidadoso é uma forma de se escolher viver bastante e de se morrer de velhice.
Mas esta escolha tem suas precondições. 
Uma delas é a possibilidade de fugir dos fatores de risco. A sensatez é uma característica psicológica importante e tem ajudado as pessoas que a cultivam a viver teoricamente mais. Mas nem sempre.
É que há uma segunda precondição para a longevidade: é preciso ter sorte.
Quer dizer, o pretendente à velhice precisa contar com a sorte para não morrer antes de envelhecer.
Por outro lado, sorte é coisa rara. Como obtê-la?
Não sei a resposta ainda para essa questão, mas podemos certamente dizer que na falta de habilidade em se ter o controle da sorte, poderíamos ao menos não ter o dom de atrair para nós o azar, que pode igualmente ceifar vidas precocemente. 
Obviamente não há interesse por parte de ninguém em ser hábil em atrair o azar, mas mesmo assim ele às vezes surge. Aleatoriedade, acaso, probabilidades muito baixas, mas passíveis de ocorrência, seja lá o nome que se queira dar ao azar, ele ocorre ainda assim com certa frequência. Muitas vezes o azar é a causa de mortes.
Esse é o tema do presente caso.
Recordo-me que eu era ainda pequeno, tinha meus oito ou nove anos e sabia que a morte ocorria aqui e ali por diversos motivos: doenças, velhice, facadas, afogamento, como relatei no Caso 13, acidentes de trânsito, infartos fulminantes.
Mas um dia meu pai, que tinha uma rede de contatos profissionais relativamente grande, ficou sabendo de um conhecido que morrera pouco tempo atrás de uma forma bem estranha. Quando se tem uma grande rede de contatos não se pode saber como estão todas as pessoas que constituem essa rede, em geral volátil e dinâmica, mas a própria rede ajuda seus membros a ficarem sabendo dos eventos mais importantes ocorrendo ou ocorridos no interior da rede, porque a informação circula rapidamente entre seus membros de maneira distinta da maneira como a informação flui para quem está de fora dela. 
Meu pai ligara para um contato X e perguntara sobre um conhecido Y, um cidadão morador das redondezas, dono de um sítio, e que precisava ser contatado por um motivo qualquer. Então a pessoa X do outro lado da linha informou sobre a morte desse conhecido Y.
Mas como? Ele era uma pessoa sadia, calma, tranquila, vivia em uma área rural segura e embora não fosse jovem, de forma alguma era um idoso que pudesse ser levado por alguma doença de ação rápida e fulminante.
Um acidente. Ele morrera no próprio terreno, nas proximidades de sua casa. Saíra para uma caminhada de sua casa até a entrada do sítio, uma estradinha de terra batida ladeada por belos e esbeltos eucaliptos. Um passeio que ele deveria fazer rotineiramente aos fins de tarde. algo absolutamente corriqueiro no mundo rural, com risco quase zero para a vida de alguém.
Exceto naquele dia.
O conhecido de meu pai saiu e não voltou no horário habitual. Seus familiares estranharam. Alguém saiu em busca de respostas. 
Encontraram-no na estradinha logo mais adiante, morto, estendido no chão.
Uma olhada mais atenciosa e eis a causa: um galho caíra do alto de uma das muitas árvores e a ponta afiada penetrou no topo do crânio do pobre homem, matando-o instantaneamente.
Um acidente, dirão todos.
Sim, um infeliz acidente.
Agora, de acordo com as leis das probabilidades, sejam elas quais sejam, fica a pergunta: quais são as chances de um evento como este acontecer?
Pequenas, sabemos, mas não de todo impossível, obviamente. 
De qualquer forma, foi azar.
Se o galho tivesse furado seu ombro ele provavelmente teria sobrevivido.
Noto que é preciso um conjunto de detalhes significativos para que um evento desses possa se repetir. Talvez se repita daqui a alguns dias. Talvez leve cem anos para ocorrer novamente. É quase como ser morto por um raio.
Por que a morte chegou a esse pobre homem dessa maneira tão súbita e improvável?
Não sei.
Só sei que o tema da sorte e do azar é digna de toda a atenção que possamos dar-lhe, ainda que não seja de forma alguma um tema negligenciado. Não. Ele é bem estudado.
Mas não o suficientemente, acredito.
Falaremos mais sobre sorte e azar neste blog.
E quanto a você?
O que pensa da sorte e do azar?
Conhece algum caso extremo de sorte ou azar que possa ser relatado aqui neste blog?
Conte-nos.
Vamos pensar nele juntos.

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