Caso 13 - A morte na galeria d'água

Eu deveria ter uns dez anos de idade quando fiquei sabendo do caso que agora relato. Já relatei no Caso 3 que a morte faz parte da vida, e que é muito difícil vivermos muito tempo sem a experiência de saber de alguém que morre em algum momento em algum lugar. Afinal, há bilhões de pessoas e elas morrem o tempo todo. São milhares e milhares de mortes todos os dias, todas as horas. Somente não nos damos conta delas porque levamos nossas vidas longe dos lugares nos quais elas normalmente ocorrem. 
Como nasci e cresci em um local pequeno, um vilarejo pacato e sereno, então as pessoas normalmente morriam em decorrência de doenças, em geral na velhice. Problemas com o fumo, doenças do coração, velhice pura e simples, e vez por outra alguma pessoa mais jovem morrendo por doenças incuráveis de origem genética ou acidentes de carro.
Como o local era muito pacato, não havia violência. Não havia assaltos, nem acidentes de trânsito no local, embora as pessoas morressem em estradas nas redondezas. E não havia acidentes graves que levassem alguém à morte. Claro, havia acidentes de trabalho. Alguém cortara a mão em uma serra aqui, outro levara um tombo de um cavalo e ficara manco ali, e assim por diante, mas muito raramente para os meus padrões de percepção de tempo.
Mas não é sobre a morte em si que trato neste presente caso. É sobre morte, mas não sobre o seu mistério. Neste caso o mistério é outro.
Embora em um local pequeno como aquele houvesse muito pouca mobilidade social, muito pouca gente saindo do local e muito pouca gente entrando, essa mobilidade ainda assim ocorria. Era a década de setenta, com êxodo rural no país todo, com crise econômica crônica e muita pobreza. Então, vez ou outra aparecia alguma família cujas origens desconhecíamos. Era gente vinda de outros estados do país, gente que procurava condições melhores de vida, ou que simplesmente chegava, se alojava onde fosse possível e seguia adiante em busca de sobrevivência.
O vilarejo era velho, mas não muito. Tinha sido criado como uma estação de parada de trens de um ramal ferroviário que fora criado no início do Século XX para servir de estímulo para a expansão agrícola do país. O ferrovia funcionara por cerca de 50 anos e fora desativada na década de sessenta. Na década de 70 restara somente os escombros da pequena e velha estação de parada. Os trilhos foram removidos e no leito restou uma estrada poeirenta que ligava o vilarejo às cidades e vilarejos vizinhos. 
A estação velha sempre fora ocupada por uma ou outra família mais pobre do local. Em determinado momento, foi ocupada por uma família muito pobre dessas cuja origem não conhecíamos. Um grupo  grande, com umas dez, doze pessoas de todas as idades, com avós, pais, filhos adolescentes e crianças pequenas que não tinham quase nada para sobreviver. As crianças pequenas não estudavam, todos eram muito simples e analfabetos e viviam mais da ajuda do povo do vilarejo do que propriamente do trabalho normal. 
Ao lado da estação velha corria e corre um pequeno regato. Quando o trem circulava, havia uma pequena ponte de pedras sobre a qual os trilhos se apoiavam. No final da década de setenta resolveram asfaltar a estradinha poeirenta. Abriram uma nova estrada que partia da estação velha e ia até a cidade mais próxima por um novo caminho, mais racional e econômico. Demoliram a velha ponte de pedras. Construíram uma galeria de concreto armado logo ao lado da pontezinha de pedras demolida e a estrada com asfalto ficou sobre a galeria. 
Plantaram grama no aterro que fizeram ao lado da galeria para que o asfalto não fosse destruído pela erosão do riacho. Afinal, durante as chuvas o pequeno regato enchia e a água corroía a terra em torno da galeria de concreto. O aterro era fundamental para a proteção da estrada, e o gramado evitava que a chuva levasse a terra do aterro lateral à pista e junto à galeria.
A grama vingou e ficou muito bonita ao longo dos meses. Na época de pouca chuva, o regado estreito de pouca profundidade dava alguns pequenos peixes que eram pescados pelos moradores e serviam de alimento, um complemento para o jantar dos mais pobres e dos apreciadores de lambaris fritos.
O regato, já raso, se espraiava quando sua água chegava na base da galeria. A água corria então em uma superfície larga e lisa, e o rio então virava uma lâmina d'água de não mais do que uns dez centímetros de profundidade. Depois, ao final da galeria, a água caía do concreto de volta ao leito original do rio. Esse cair formara uma pequena panela, uma pequena bacia d'água depois da galeria, de forma que ali sempre havia muito peixe pequeno que não era capaz de subir a borda de concreto da galeria, ou mesmo peixes maiores, que poderiam chegar a subir a borda da galeria rio acima, mas somente quando o rio enchia, mas não na época de pouca água, porque não poderiam nadar em uma lâmina d'água de dez centímetros. 
Assim, a parte de baixo da galeria era um ponto muito bom para pesca no dia a dia daquele que gostasse de pescar na redondeza.
Muitos preferiam pescar do barranco gramado. Era um lugar fresco, agradável e macio. Uma vara de bambu comum servia muito bem para se alcançar o pequeno poço mais abaixo, ou algum lambari descendo a galeria, lutando para voltar para a parte de cima do rio.
Assim, a pobre família que passara a morar na velha estação sempre tirava proveito da existência de comida logo ao lado para ajudar na alimentação de todos. Sempre havia algum morador da velha estação pescando na beira do riacho no final das tardes.
Então, circulou no vilarejo a notícia de que um daqueles moradores havia se afogado no córrego da estação.
Ocorrera numa tarde tranquila. Fora um jovem, no seus quinze, dezesseis anos, que estivera pescando nas encostas da galeria. Ele caíra da borda da galeria e se afogara no concreto, numa lamina d'água que não teria mais do que cinco centímetros naquela tarde quente e serena.
Todos no vilarejo ficaram surpresos com o acontecimento. O jovem poderia ter morrido no poço, mas não no raso da galeria. Teria ele caído por acidente e batido a cabeça, desmaiado e se afogado?
Não, ficamos sabendo depois. Não fora isso que acontecera. E depois, mesmo caindo, dificilmente alguém se machucaria a ponto de ficar desacordado, porque as pessoas pescavam na encosta da estrada a um nível de no máximo dois metros de altura. Um tombo de um metro e meio de altura e dentro d'água dificilmente levaria alguém a bater a cabeça e morrer.
Mas a história, contaram os familiares, era outra. O jovem estava pescando sozinho naquela tarde. O jovem não era um garoto normal. Ele tinha problemas de saúde. Tinha problemas mentais. Ele não era capaz de trabalhar como um jovem de quinze anos qualquer é capaz. Ele não sabia ler, falava pouco e mal e os familiares o colocavam para pescar durante as tardes, uma tarefa simples que ele era capaz de fazer sem esforço, dada a enorme paciência e calma que eram exigidas de alguém naquele lugar tão cheio de silêncio e tédio. Era somente a necessidade de comida que forçava a família a inocentemente utilizar-se do pobre rapaz para obter peixes para o jantar, já que ele era mais um peso do que uma ajuda naquela situação social tão difícil pela qual todos daquela família passavam.
E o jovem tinha um outro problema: ele tinha convulsões.
O jovem teve um ataque de convulsão naquela tarde, na beira do riacho. Sozinho, caiu inconsciente, espumando a boca, ao lado da vara de pescar. Rolou de lado e caiu no concreto da galeria. Ficou de rosto para baixo. Aspirou vômito e água. Morreu afogado silenciosamente. Algumas horas depois notaram sua demora. Era logo ao lado da estação velha. Alguém foi lá e viu o jovem já morto. Nada puderam fazer.
Alguns dias depois e a família desafortunada mudou-se para local desconhecido. Não havia vínculo formado com os moradores tradicionais do vilarejo. Não sei para onde foram. A estação velha foi abandonada. Ninguém voltou a ocupá-la. Porque ela ficara muito próxima à nova estrada asfaltada, acabou sendo demolida alguns meses depois.
O caso caiu no esquecimento.
Mas não para mim.
Esse caso não é sobre a morte em si, já disse mais acima.
Ele é sobre a mente humana não normal.
Eu até então jamais havia visto ou ouvido falar em doentes mentais.
Crianças sabem que há pessoas com problemas mentais, ao menos teoricamente. Mas eu nunca tinha visto nenhuma delas antes desse triste acontecimento. Eu sabia que havia sanatórios em grandes cidades, sabia que havia pessoas chamadas retardadas, sabia que tinha loucos que agiam de maneira estranha, sabia que havia pessoas mentalmente prejudicadas ao ponto da loucura quando embriagadas pelo álcool e inclusive conhecia já algumas delas, mas nunca havia imaginado ou ouvido falar em doenças mentais que poderiam matar pessoas inocentes como uma força diabólica.
Ao longo dos anos fui aprendendo mais sobre o cérebro humano e suas incríveis características. Aprendi sobre cérebros funcionais, especialmente funcionais e disfuncionais. Aprendi ainda que um cérebro disfuncional, ainda que temporariamente, é capaz de produzir eventos que ainda hoje não podem ser coerentemente explicados. Aprendi que há doenças mentais extremamente misteriosas, assim como há uma forte relação entre doenças mentais e muitos dos estranhos fenômenos estudados pela pesquisa paranormal.
Essa relação merece ser melhor investigada, e o será aqui neste blog.
Por hora, registro meu Caso 13 como uma forma de lembrar que doenças mentais são acontecimentos estranhos, misteriosos, assustadores e, por vezes, mortais.
Espero que se você também vivenciou alguma experiência envolvendo doenças mentais estranhas e queira relatá-la neste blog que o faça sem medo, para aprendamos juntos sobre o tema.
Sinta-se à vontade para relatá-las aqui.

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