Caso 14 - O maço de cigarros

Eu deveria ter uns dez anos quando algo estranho aconteceu em minha casa em uma certa manhã qualquer.
Na época não dei muita atenção ao caso, mas ainda assim me recordo dele parcialmente. Não sei até que ponto houve engano, falha de comunicação ou aconteceu mesmo algo estranho que não é fácil de explicar ainda mesmo hoje, passados quase quarenta anos do ocorrido.
Meus pais dormiam em um quarto diferente do nosso, o das crianças. Meu pai não tinha uma profissão que exigia dele acordar todos os dias no mesmo horário. Então, naquele dia em particular ele não tivera que sair muito cedo e ficara até um pouco mais tarde na cama dormindo. Aparentemente minha mãe já havia acordado e se levantado. Deveria estar na cozinha fazendo um café. Provavelmente era um sábado  porque nós, as crianças, não estávamos acordados e prontos para a escola.
Então meu pai chamou minha mãe e conversaram algo sobre algum acontecimento muito interessante, porque percebi um forte tom de surpresa na conversa de ambos.
Nós, as crianças, ficamos curiosos com aquela conversa animada.
Eu certamente estava dormindo antes daquela conversa, porque me recordo de que me levantei, cheguei próximo ao quarto e meu irmão mais velho já estava a par do assunto. Era alguma coisa sobre cigarros.
Meu pai era fumante.
Tal como a maioria dos fumantes daquela época, o final da década de setenta do Século XX, ele fumava dentro do quarto. Naquela manhã ele acordara e estendera a mão para pegar um cigarro no maço ao lado da cama, sobre o criado-mudo do seu lado direito.
O maço estava fechado. 
Ele pegou o maço e o abriu. Provavelmente era um maço da marca Hollywood, a que ele fumava regularmente. Ele tirou o primeiro cigarro e tentou acendê-lo. Notou então que a ponta que deveria ser acessa estava errada porque não era a ponta aberta com o fumo, mas a ponta com o filtro, coberta de papel marrom. 
Ele então virou o cigarro e então a surpresa: a outra ponta, a que estava na boca, também tinha um filtro. O cigarro tinha as duas pontas com filtros. Um erro de fabricação digno de curiosidade. Nada de mais, exceto por um detalhe: meu pai acabara de acordar e no seu último sonho antes de despertar, sonhara exatamente isso. Ele sonhara que abria o maço de cigarros fechado ao lado da cama e retirava um cigarro com dois filtros.
Somente quando se deu conta do cigarro real com dois filtros foi que se lembrou do sonho.
Eu, um menino com os meus oito, nove anos, e ainda sonolento naquela manhã de um possível sábado de folga escolar, não dei muita importância e acho que até voltei a dormir depois que tudo foi explicado.
Hoje pergunto: será que meu pai sonhara mesmo com aquilo ou a surpresa toda era somente pela falha na fabricação do cigarro?
Não sei.
Nunca mais toquei no assunto com ninguém.
Meu pai morreu muito anos depois em decorrência de uma doença pulmonar provocada pelo consumo de cigarros.
Não sei se foi um legítimo caso de premonição.
Parece que sim. 
É comum que haja relatos de premonições durante os sonhos no mundo dos fenômenos estranhos?
Sim. 
Geralmente são sonhos relacionados com tragédias, eventos com forte impacto emocional.
Sonhos sobre eventos raros como um cigarro com erro de fabricação não me parecem comuns. Aliás, nunca mais ouvi falar em cigarros com erro de fabricação. O cigarro com dois filtros em si já é um fenômeno estranho porque sabemos que os cigarros são fabricados por processos automatizados por meio de máquinas que dificilmente cometeriam um erro dessa natureza, exceto se houvesse um erro de programação ou reparo nelas que as levasse a produzir não um, mas um lote todo de cigarros com dois filtros, sendo quase certo que o erro seria detectado e o lote defeituoso seria eliminado, não sendo provável que deixassem apenas um único cigarro falho dentro de um maço com os demais dezenove cigarros perfeitos.
E quanto ao sonho premonitório?
Ocorreu mesmo?
Não seria uma espécie de deja vu de meu pai? Ele não se enganou?
Não sei a resposta para essas questões porque ele está morto e mesmo minha mãe, que poderia ajudar a esclarecer parte do enigma, não poderia afirmar com segurança se meu pai se enganara ao atribuir como um sonho premonitório uma sensação de deja vu decorrente da confusão mental provocada pela surpresa do evento real tão raro. Afinal, fumar, ou mais especificamente, retirar um cigarro de um maço e acendê-lo, é um ato tão fortemente automático que é executado sem nenhum erro durante milhares de vezes na vida de um adulto viciado no fumo a décadas. O cigarro com dois filtros foi um fato. A confusão ao tentar acendê-lo, outro fato. A premonição, talvez.
Não importa.
Tomado como um fato, o suposto sonho de meu pai seria evidentemente premonitório.
Mas como?
Como a mente inconsciente soube?
Ou não soube?
O assunto é digno de atenção.
Não posso deixar de enfatizar que relato o presente caso aqui neste blog mais como um estímulo a você, leitor, para que também faça um esforço de memória e tente lembrar-se de casos parecidos para que possamos estudá-los em conjunto.
Você já teve um sonho premonitório? Conhece alguma história sobre algum deles?
Vá em frente.
Conte-nos.

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